Se eu te disser que aquela sua enxaqueca crônica tem a ver com uma deficiência do sangue do fígado, ou que sua insônia pode ser gerada porque a água dos rins não consegue ascender para resfriar o fogo do coração, você certamente vai achar uma conversa de maluco. Se eu te falar que a sua indigestão costumeira pode ser gerada pelos pensamentos obsessivos debilitando a sua terra, ou que aquela tosse noturna pode ser o sinal da secura dos seus pulmões, você vai me olhar com cara de paisagem.
É justamente de paisagem que se trata. O corpo para a medicina chinesa é como um ecossistema: a asma pode ser o retrato de um horizonte ao qual falta calor para contrapor-se ao vento frio; o alzheimer pode ser um denso e pegajoso nevoeiro de toxinas; enxaquecas constantes podem ser queimadas que saíram do controle… O vento, o fogo, a água, a umidade, o nevoeiro, a terra, os pântanos: tudo muda de maneira dinâmica, e é preciso encontrar o equilíbrio ótimo dessa paisagem.
Essa maneira de abordar os processos de saúde e adoecimento do corpo-paisagem tem uma linguagem própria, que dialoga com as observações milenares que os antigos chineses fizeram dos fluxos da natureza. Esse entendimento do corpo humano enquanto parte da natureza, sujeito aos mesmos movimentos que se observa na paisagem, é o que permite ao terapeuta de medicina chinesa abordar os processos de adoecimento de maneira particular, buscando caminhos alternativos para restabelecer a saúde do paciente.
O terapeuta de medicina chinesa não pode ser como um agricultor que explora a terra, carpindo e arando, fertilizando e envenenando para colher apenas uma monocultura desejável. Em outras palavras, não estamos buscando atingir um determinado ideal de saúde estabelecido como desejável para todos os pacientes, independentes de suas particularidades, condição e história pessoais.
Nos comportamos mais como jardineiros que cultivam uma floresta: precisamos conhecer as particularidades daquele ecossistema e mediar com paciência e tato as relações ali existentes, para que a paisagem encontre o equilíbrio dinâmico no qual possa florescer em sua potencialidade máxima. Árvores nascerão e morrerão, mas a floresta continuará em pé.
É cada vez mais comum que as pessoas sejam diagnosticadas de maneira categórica com os mais variados tipos de enfermidade: hipertensão, diabetes, hérnia de disco, depressão, ansiedade, bipolaridade… Logo a pessoa passa a possuir uma doença: "a MINHA diabetes está descompensada", "a MINHA hérnia está atacada" e assim por diante. Daí para o sujeito passar a se identificar com o diagnóstico é um pulo: "ela é depressiva, coitada", "sou bipolar tipo 2", "eu sou diabético, não posso comer nada"…
Muitas vezes então a vida passa a girar em torno de um problema de saúde, e a pessoa passa a ser reconhecida e se reconhecer muito mais como um diagnóstico do que como um sujeito integral, com suas qualidades e defeitos, potencialidades e dificuldades.
Na Medicina Chinesa procuramos nos afastar desse tipo de diagnóstico enrijecido, porque entendemos que tudo no mundo está em constante transformação, e que os fluxos da vida podem se alterar. Na verdade é justamente isso que procuramos fazer: alterar os fluxos do paciente para que se restabeleça o equilíbrio que se reflete em saúde e bem estar.
Por isso não chamamos as síndromes de doenças, mas de padrões de desarmonia. Cada pessoa é única e singular, e cada um tem um jeito específico de estar em harmonia. Mas existem padrões de desarmonias, mais ou menos frequentes, que desarranjam o sujeito e geram as doenças.
É como por exemplo tentar cultivar uma planta de sombra ao sol: ela desenvolverá um padrão de calor e acabará morrendo. Sua harmonia está na sombra, é para lá que ela deve retornar. Cabe ao terapeuta ser capaz de identificar com quais padrões aquele paciente específico está lidando e indicar caminhos para que ele seja capaz de retornar à sua saúde e equilíbrio.
Vale dizer que esse equilíbrio, longe de ser algo estático, é dinâmico e se altera o tempo todo. Estamos sempre nos transformando, e com o tempo nosso ponto de equilíbrio também se move. Na verdade, se aprendemos a perceber as sutilezas, vamos percebendo que dia a dia nossas necessidades podem mudar, de acordo com nosso estado psíquico e com o meio à nossa volta: certos dias precisamos dormir mais, em outros um pouco menos. Certos dias precisamos comer mais legumes, em outros alguma carne…
Ajudar os pacientes a perceber esse fluxo e navegar nele é o papel principal do terapeuta de Medicina Chinesa.
Na visão tradicional chinesa, cada ser é único, uma mistura singular das energias do céu e da terra, do yin e do yang. Assim sendo, cada pessoa já carrega em si desde sua concepção uma particularidade como semente que irá se desenvolver ao longo da vida. É como diz a canção "cada ser carrega em si o dom de ser capaz, de ser feliz…"
No entanto, podemos muitas vezes passar a vida querendo nos enquadrar em um determinado ideal que nada tem a ver com a expressão dessa nossa singularidade. Para o pensamento chinês clássico esse é o motivo de muitos adoecimentos — quando nos afastamos de nosso ritmo, nosso pulso natural que nos conecta de maneira originária com a natureza.
Mal comparando, é como se uma goiabeira quisesse dar maçãs. Ou se uma semente de maçã quisesse crescer goiabeira. Isso seria desenvolver-se de maneira contrária a sua natureza, e por conseguinte geraria debilidades e adoecimento.
Quando conseguimos, gradualmente, ir nos aproximando de nossa singularidade inata e encontramos a expressão dessa singularidade em nosso ser, vamos nos alinhando com nosso pulso interior, nos afinando ao ritmo que nos é natural. Esse processo é em si altamente curativo e pode ajudar a lidar com vários adoecimentos que antes nos pareciam muito difíceis de abordar.
Em Medicina Chinesa dizemos que dor é uma estagnação: tudo que para gera dor. O corpo saudável precisa estar em constante fluxo: o ar entra e sai dos pulmões, fazendo as trocas gasosas com o sangue, que deve circular pelas veias e artérias. Da mesma maneira, os impulsos elétricos devem correr pelos neurônios, que estão trocando neurotransmissores nos espaços sinápticos.
Num nível mais sutil é o Qi que percorre os canais energéticos do organismo, levando vitalidade para todo o corpo, e a própria mente, vista pelos chineses também como uma substância vital, deve ter seu fluxo saudável e natural, sem por exemplo se esgotar em uma estafa mental ou se prender em pensamentos obsessivos.
Mas quando temos o bloqueio de algum fluxo, temos dor. As contraturas musculares por exemplo são bloqueios, geralmente localizados, mas também sistêmicos e extensos, que impedem a correta circulação energética em um determinado grupo muscular. Da mesma maneira, quando fazemos uma contusão, temos ali um processo inflamatório que bloqueia a circulação e causa dor. Uma cólica menstrual pode ser causada pela dificuldade do organismo de liberar o fluxo da menstruação, e uma dor de cabeça pode ocorrer quando o corpo não dá conta de fluir o excesso de circulação na parte superior.
Em todos os casos, embora as técnicas possam variar, o princípio de tratamento é mais ou menos o mesmo: restaurar o fluxo. Um corpo onde tudo flui é um corpo vivo e pulsante, saudável e sem dores.
Na Medicina Chinesa as Substâncias Vitais são vistas como tipos de "fluídos", mais ou menos densos, que circulam no organismo garantindo seu correto funcionamento.
Embora seja geralmente traduzido por "energia vital", essa tradução é um tanto quanto problemática. O ideograma para Qi mostra uma tigela de arroz da qual sai um vapor fumegante. Qi é geralmente associado ao sopro, respiração, uma substância imaterial (o vapor) que no entanto tem uma base material (o arroz na tigela). Em um contexto mais amplo o Qi é tanto o arroz quanto o vapor, é tanto denso quanto sutil: tudo que existe no universo é Qi em diferentes formas e densidades. No contexto médico chamamos de Qi essa substância mais sutil, ligada à respiração, que como um sopro percorre os canais de circulação do organismo promovendo vitalidade, sendo relacionada com nossa capacidade de realizar funções: movimentar-se, aquecer-se, digerir os alimentos, defender o corpo, etc.
Traduzimos geralmente o Jing por Essência. É uma substância vital densa, armazenada nos rins, ligada em grande medida com nossa ancestralidade. Mal comparando, poderíamos dizer que o Jing é nossa herança genética, já que a maior parte de nossa essência é herdada de nossos pais. É responsável pelos processos fisiológicos mais longos de nosso organismo: o crescimento, a maturidade sexual, a reprodução, o envelhecimento.
Existem muitas traduções para Shen. Embora espírito seja uma das mais correntes, podemos também dizer que Shen é mente, nossa capacidade de colocar foco em um determinado assunto, de discernir. Shen é portanto nossa consciência, e nosso bem estar físico e emocional depende da boa produção e circulação dessa substância que é a mais rarefeita e sutil de todas.
Em linhas gerais Xue é o nosso sangue. É ele quem leva nutrição para todo o corpo. Junto com o Jing, é uma das substâncias mais densas, que tem a função de garantir a saúde estrutural do organismo. No entanto Xue e Qi sempre circulam juntos, onde falta um o outro consequentemente também estará em falta.
São os líquidos corporais, tais como saliva, suor, lágrimas, líquido sinovial, linfa e assim por diante. São necessários para manter a boa hidratação de todo o organismo, evitando desgastes e atrito.